14/08/2023 às 17h35min - Atualizada em 15/08/2023 às 00h01min

Dr. Manhattan, a guerra na Ucrânia e o relógio do juízo final 

*Rafael Pons Reis 

Valquiria Cristina da Silva Marchiori
Rodrigo Leal

Quando perguntaram ao Dr. Manhattan (personagem da HQ “Watchmen”) sobre o relógio do juízo final, um símbolo que representa a aproximação da extinção da raça humana causada pela guerra nuclear, sua resposta foi pontual: “um relógio simbólico é tão útil para tal mensuração quanto uma foto do oxigênio é para alguém que se afoga”.  

Em 24 de janeiro passado, o referido relógio foi ajustado para 90 segundos antes da meia-noite, sendo meia-noite a marca para a extinção total, o que significa que o relógio está mais próximo da meia-noite do que nunca desde sua criação em 1947. O principal motivo do anúncio da atualização do relógio é o temor de que a guerra na Ucrânia possa resultar no uso de artefatos nucleares. Mesmo diante de ameaças veladas de Putin sobre a possibilidade do uso de ogivas táticas nucleares na guerra em andamento, para muitos analistas, a probabilidade de seu uso é baixa no conflito. 

A guerra na Ucrânia, que está prestes a completar um ano e meio em agosto, marca uma mudança significativa nas relações internacionais. No início, referíamo-nos à guerra como sendo da Ucrânia, mas agora podemos falar da guerra na Ucrânia, em que pese o conflito ter se tornado parte de um conflito muito mais amplo e de proporções globais.  

Hoje, existe um compromisso da OTAN (destaque para a recente entrada de dois novos membros: Finlândia e Suécia) com o objetivo de garantir a manutenção de um sistema internacional, sob a égide da hegemonia americana (em declínio), e que se opõe a uma proposição de mundo defendida pela China, Rússia e por outros países emergentes do Sul Global. Trata-se, pois, de um confronto entre o Ocidente e boa parte do resto do mundo. 

Um elemento desafiador para a política externa americana tem sido a reformulação de suas alianças globais. Afirma-se certas vezes que os Estados Unidos não têm amigos, mas sim aliados. Os tradicionais aliados do país (Reino Unido, Canadá, Austrália, Japão, Alemanha, Israel) e parcerias com outros países ao redor do mundo (França, Coreia do Sul, Arábia Saudita) são resultado de um período em que a hegemonia norte-americana tinha alcançado uma posição de supremacia e influência significativa no sistema internacional. 

Ao se estabelecerem como líderes do mundo ocidental, defensores da economia de mercado capitalista e da democracia liberal, o país desempenhou um papel fundamental em criar uma ordem internacional, sob sua imagem e semelhança, cooptando “corações e mentes” por meio de sua influência cultural e ideológica. Ordem esta que está sendo desafiada pela ascensão de novas geometrias de poder, a exemplo do BRICS, cujo Banco de Desenvolvimento, financiado pela China, pode ser uma alternativa ao Banco Mundial e ao FMI. 

Em um momento em que as antigas noções geopolíticas voltaram a ocupar o centro das atenções das grandes potências, a premissa de conter o coração eurasiático controlando o “anel continental” parece fazer sentido se observarmos os esforços dos EUA para conter a China na Ásia por meio de sua rede de alianças e parceiras, neste caso, um cinturão de aliados que se estende do Japão ao Reino Unido.  

Para o presidente Biden, a rede de alianças e parcerias dos americanos é o ativo estratégico mais importante do país, tendo em vista os efeitos disruptivos que a guerra na Ucrânia tem causado na política internacional. Em outro sentido, iniciativas como o “Cinturão e Rota”, lançado pela China e a União Econômica Euroasiática (EAEU), liderado pela Rússia, vem deflagrando a coordenação conjunto destes dois países a uma convergência estratégica na Eurásia, com o objetivo de integrar economicamente as bordas do Pacífico ao Leste Europeu.  

Estamos vivendo um período de turbulência e caos sistêmico nas relações internacionais não visto desde o período da Guerra Fria. Resta saber se diplomacia das grandes potências e os esforços de organismos multilaterais – Nações Unidas – conseguirão lograr êxito em oferecer respostas sistêmicas para a guerra na Ucrânia, dentre outros problemas emergenciais, a fim de fato tornar inócua a ideia do relógio do juízo final. 

(*) Rafael Pons Reis é professor do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Internacional Uninter, Mestre em Relações Internacionais e Doutor em Sociologia Política 

 


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