13/08/2023 às 18h24min - Atualizada em 14/08/2023 às 00h02min

quem já não se automedicou?

por florence rei, química e bióloga

Florence Rei, química e bióloga
domínio publico
Quem já não se automedicou?

Pois é, adoramos nos automedicar, e temos receitinhas caseiras para muitos males. Estas, muitas vezes, funcionam melhor do que os remédios comprados em farmácias. Mas e os animais, o que fazem quando se sentem indispostos e adoentados? Sabemos que os animais domésticos e companheiros do dia a dia levamos ao veterinário, mas e àqueles que vivem soltos na natureza? Este é um campo fascinante e relativamente novo, onde, mais uma vez, aprendemos com a mãe natureza. 

Na década de 1980, nasceu um novo ramo da ciência, dedicado à "zoofarmacognosia", que significa: conhecimento dos animais sobre a medicina. Nas palavras do pesquisador da vida selvagem, Michael Huffman, o termo complicado acima significa - O que um animal faz para manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio, e não se sentir mal". Na verdade, há milênios o homem observa os hábitos “curandeiros” dos animais e muito aprendeu vendo estes se automedicar, mas como ciência o nome surgiu mais recentemente. 

Em 2014, o site americano do Instituto Nacional de Saúde (NIH) publicou um artigo intitulado, Animais que se automedicam, e afirmou:

Uma grande variedade de animais se “auto prescrevem” plantas encontradas ao redor quando precisam de um remédio. E a lista de “doutores”, entre os animais, é longa mesmo, vejam que curiosidade: 

● Sabe-se que ursos, veados, alces e vários carnívoros, bem como grandes símios, consomem plantas medicinais aparentemente para se automedicar.

● Acredita-se que alguns lagartos respondem à picada de uma cobra venenosa comendo uma certa raiz para combater o veneno.

● Os babuínos da Etiópia comem as folhas de uma planta para combater os platelmintos que causam a esquistossomose.

● As moscas-das-frutas põem ovos em plantas com altos níveis de etanol, quando detectam vespas parasitóides, uma forma de proteger os descendentes.

● Araras vermelhas e verdes, e muitos animais, comem argila para ajudar na digestão e matar bactérias.

● No Brasil, as fêmeas dos macacos-aranha-barrigudos adicionam plantas à própria dieta para aumentar ou diminuir a fertilidade.

● Em Madagascar, lêmures grávidas comem tamarindo, folhas de figueira e a casca para ajudar na produção de leite, matar parasitas e aumentar as chances de um nascimento bem-sucedido.

● No Quênia, elefantes grávidas comem as folhas de algumas árvores para induzir o parto.

Há ainda muitos outros relatos e estudos de cientistas que observaram comportamentos "médicos" entre os animais, como por exemplo: em 1960, o antropologista, Toshisada Nishida, observou o mais famoso uso herbal pelos chimpanzés da Tanzânia, quando estes costumavam ser vistos arrancando folhas de qualquer uma das três espécies de Aspilia, um gênero de planta arbustiva relacionada ao girassol. Em vez de simplesmente mastigar as folhas, os macacos as enrolam na boca por um tempo e depois engolem, semelhante aos humanos quando retemos uma medicação embaixo da língua antes de engolir.

“Em 2022, de acordo com um artigo publicado pelo European Journal of Wildlife Research, durante as estações frias e chuvosas, os porcos-espinhos-de-crista (Hystrix cristata), da parte central da Itália, costumam ser infectados por diferentes espécies de ectoparasitas e endoparasitas. Durante o período, os porcos-espinhos procuram ativamente uma grande variedade de plantas medicinais, principalmente com propriedades antiparasitárias. As plantas parecem aliviar os sintomas das infecções, como a inflamação.

Vários animais, como diferentes pássaros, macacos, gorilas e chimpanzés da montanha, antas e elefantes da floresta procuram e comem argila, que absorve bactérias intestinais e toxinas, aliviando dores de estômago e diarreia. Já o gado come solo de cupim, rico em argila, e esta desativa organismos causadores de doenças ou toxinas de frutas ingeridas, exemplifica o médico Mercola.”

“Entre as aves, mais de 200 espécies de pássaros que cantam "se limpam" com formigas, um comportamento conhecido como "anting". Os pássaros seguram as formigas com o bico e as esfregam ao longo da espinha de cada pena, até a base, ou às vezes rolam em formigueiros para que as formigas rastejem por suas penas. Os pássaros costumam usar formigas que borrifam ácido fórmico. Em testes de laboratório, o ácido é prejudicial aos piolhos das penas. Apenas o vapor já é capaz de acabar com a infestação.”

Ah... a natureza, uma farmácia a céu aberto. Temos tanto a aprender, antes de nos intoxicarmos com drogas! 

por Florence Rei, formada em Química pela Oswaldo Cruz em São Paulo, graduada pela Faculdade de Medicina OSEC em Biologia e formada em Microscopia Eletrônica. Atualmente vive na Flórida (USA) e desde 2019 vem atuando como pesquisadora independente e escritora.
contato:  www.florencerei.com  / email: florence.rei.florence@gmail.com 
 
 

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