“Estava pele e osso”, “pesava 38 kg”: os efeitos da ketamina nas cunhadas da ex-sinhazinha do Boi

5 leitura mínima
“Estava pele e osso”, “pesava 38 kg”: os efeitos da ketamina nas cunhadas da ex-sinhazinha do Boi

Familiares da atual e da ex-companheira do irmão de Didja Cardoso prestaram depoimento na investigação sobre a morte da influenciadora amazonense.

Os depoimentos obtidos pela CNN revelam o impacto degradante da ketamina, ou cetamina, no corpo das mulheres que supostamente teriam se envolvido com a seita “Pai, mãe, vida”, fundada e administrada por familiares da ex-sinhazinha do Boi Garantido, uma das personagens centrais do Festival de Parintins.

Os depoimentos obtidos pela CNN tem como ponto central o irmão de Djidja, Ademar Farias Cardoso Neto. Ele deve responder por uma série de crimes, como perigo para a vida ou saúde de outrem, aborto provocado sem consentimento da gestante, estupro de vulnerável, sequestro e cárcere privado e maus tratos a animais.

Segundo a polícia, ele já havia sido investigado por falsificação e corrupção.

Uma ex-namorada de Ademar, que viajou com ele para Londres, onde teria começado o uso da substância, relatou abusos físicos e psicológicos. Disse, entre outras coisas, que ele ‘injetava muita droga’ nela ‘até ela ‘perder os sentidos’ e que fazia sexo com ela sem consentimento por muitas vezes, chegando a sofrer um aborto e tendo sido ‘resgatada ensanguentada’, ‘totalmente despida’ e sem banho há dias.

A ex-namorada conta que estava pesando 20 quilos a menos que hoje quando foi resgatada pela mãe e pela avó na casa da família Cardoso.

A avó da ex-namorada de Ademar também prestou depoimento. Ela disse que a neta teve idas e vindas com o irmão de Djidja e que soube, antes do resgate, que a neta “estava ficando só pele e osso”.

Em um determinado momento, ela diz que percebeu que a neta tinha “as veias dos braços muito inchadas” e acabou ficando em tratamento por um ano. No momento do depoimento, a neta estaria limpa há um mês e em tratamento psicológico.

Por respeito às vítimas, os nomes delas e de seus familiares não serão revelados nesta reportagem. Os relatos são corroborados por vídeos que mostram mulheres claramente debilitadas depois do uso da substância injetável e com significativos impactos no corpo, como alterações nos olhos, no cabelo, na pele e nos movimentos, além do severo emagrecimento.

Parte dos vídeos mostram a atual companheira de Ademar, com quem ele mantém uma união estável, segundo o inquérito. Ela contou à polícia que sofre de depressão e que passou a usar ketamina por junto com Ademar durante a gravidez de um filho dele, tendo sofrido infeções urinárias cinco meses depois do parto, além de ficar com fígado e rins sobrecarregados, período em que chegou a ser internada.

Ela revelou que durante a internação, Ademar entrou no hospital levando ketamina e os dois se drogaram juntos.

O pai dela disse à polícia que a filha estava “com os braços todos marcados de tanto usar droga” e que o uso da ketamina a deixou “completamente aérea” e que ela “mal conseguia se vestir ou caminhar”.

Segundo ele, ela chegou a pesar 38kg e estava “com os olhos amarelados”, além de ter tido problemas no rim, fígado e pâncreas e vesícula.

Em entrevista à CNN, o médico intensivista Carlos Eduardo Pompilio explicou que a ketamina “tem alto poder viciante, é uma droga que surgiu na década de 1950 com a modificação de uma outra droga que tem um poder alucinógeno muito maior” e que “o grau de vício já era muito alto” àquela época.

“Ela está sendo usada como uma droga ilícita, num comércio ilícito, para fins recreativos”, disse.

Pompilio ainda explicou que o acesso da ketamina como uma substância veterinária tem um rigor muito menor do que as exigências para fins médicos. “É usada de uma forma muito descuidada e perigosa”, acrescentou o médico.

Os advogados da família Cardoso dizem que não havia seita ou rituais e que a prisão ajudou a ‘salvar’ a vida de Ademar e sua mãe, pois os dois estariam doentes por causa do vício em ketamina.